Economia circular com incineração de resíduos?

Por Alejandra Parra Muñoz, Mestre em Planeamento, Bióloga de Gestão de Recursos Naturais, Rede de Ação de Direitos Ambientais da RADA.-

Já passaram 4 sessões da tabela de recuperação de energia, uma das 11 tabelas do comité estratégico para o desenvolvimento do roteiro para a economia circular no Chile. As coisas avançaram e recuaram neste quadro flutuante que, inicialmente, procurou perceber se deveria haver espaço para a incineração de resíduos no roteiro para a economia circular.

Se esse objetivo já era suspeito de uma tendência anterior para a incorporação da incineração no roteiro para a economia circular, isso foi demonstrado pela “evolução” da tabela, que em cada nova sessão se centrou cada vez mais na co-transformação nas fábricas de cimento.

Foi assim, na sessão extraordinária com o perito europeu Jorge Díaz, da Unidade de Resíduos da Comissão Geral do Ambiente da União Europeia, que, depois de reiteradamente salientar que a União Europeia deixou de financiar, passou quase diretamente a promover a utilização de fábricas de cimento no Chile para o tratamento de resíduos não recicláveis e compostáveis.

Passamos então de uma mesa sobre políticas públicas para uma mesa sobre como facilitar o desenvolvimento de uma indústria poluente e insustentável no Chile. Porque qual é o objetivo, se não for esse, de falar de cimentos numa mesa de recuperação de energia, com um perito da União Europeia que já esclareceu que a incineração está fora das políticas públicas na Europa?

Outro elemento de prova das intenções iniciais de incluir a incineração de resíduos no roteiro para a economia circular é a razão pela qual o objetivo de 10% de aterro (pré-definido pelo Ministério do Ambiente) deve ser modificado se a incineração for deixada de fora. Esta foi a conclusão da tabela quando, na sequência de fortes argumentos dos representantes da Rede de Biodigestores para a América Latina e Caraíbas, do Movimento Chileno dos Recicladores e da Rede de Ação para os Direitos Ambientais, foi unanimemente concluído que a incineração de resíduos urbanos não tem lugar na economia circular e, pelo contrário, é incompatível.

Sim, conseguimos isso, um reconhecimento unânime da tabela, da incompatibilidade da incineração de resíduos domésticos com a economia circular, mas nestes espaços, o que se ganha pode ser facilmente perdido, especialmente quando os ministérios se sentam à mesa com ideias mais compatíveis com as indústrias do que com a cidadania.

A economia circular é um conceito que visa repensar a economia mostrando que a forma atual de produção em massa de bens a nível global não corresponde à natureza finita do planeta e ao carácter cíclico com que a vida funciona. As fontes de onde provêm todos os produtos que consumimos como humanidade globalizada têm um limite de exploração, bem como limitam a capacidade do planeta de absorver resíduos dessa produção, tanto nas fases de extração como de fabrico, e, finalmente, no pós-consumo de resíduos.

vinh
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